O número que mudou em 2026
Se você acompanha o assunto, já ouviu falar em "taxação do sol". O nome é ruim, mas o mecanismo é real e tem data marcada no calendário.
Desde 7 de janeiro de 2023, quem instala um sistema solar próprio entra num cronograma de transição criado pela Lei 14.300/2022. Esse cronograma reduz, ano a ano, quanto do Fio B pode ser abatido da conta pela energia que você injeta na rede.
| Ano | % do Fio B cobrado | % ainda compensado |
|---|---|---|
| 2023 | 15% | 85% |
| 2024 | 30% | 70% |
| 2025 | 45% | 55% |
| 2026 | 60% | 40% |
| 2027 | 75% | 25% |
| 2028 | 90% | 10% |
| 2029 em diante | Novo modelo definido pela ANEEL | — |
Em 2026, portanto, apenas 40% do Fio B continua sendo abatido de quem gera a própria energia. Era 55% no ano passado.
O que é o Fio B, sem jargão
Sua conta de luz não paga só "energia". Ela paga, basicamente, duas coisas:
- A energia em si (a TE, Tarifa de Energia) — o elétron que você consome.
- O transporte dessa energia (a TUSD, Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição) — os postes, os cabos, os transformadores, a equipe que conserta o poste quando cai um galho.
O Fio B é o pedaço da TUSD que remunera especificamente a rede de distribuição — a infraestrutura local que chega até a sua casa.
A lógica do regulador é a seguinte: mesmo quem gera a própria energia usa a rede. Usa de dia, quando injeta o excedente, e usa de noite, quando o sol não está lá e precisa puxar energia de volta. A rede funciona como uma bateria gigante, e manter essa bateria custa dinheiro. A Lei 14.300 decidiu que quem usa a rede deve pagar progressivamente por ela.
Discordar do mérito é legítimo. Mas o cronograma está em lei, com datas definidas até 2028 — e planejamento financeiro se faz com a regra que existe, não com a que a gente gostaria que existisse.
O que isso faz com o retorno de quem instala painel
Aqui está a parte que quase nenhum material do setor coloca de forma direta: o payback de um sistema solar próprio está ficando mais longo a cada janeiro.
Não porque o equipamento piorou — os módulos, aliás, ficaram mais baratos. Mas porque a parcela da conta que o sistema consegue abater vem encolhendo por decisão regulatória. Um projeto que fechava a conta em 4 anos sob as regras de 2023 fecha em mais tempo sob as regras de 2026, e em mais ainda sob as de 2027.
Isso não significa que instalar painel virou má ideia. Para muita gente — casa própria, telhado bom, consumo alto, capital disponível e vontade de gerir o ativo — continua fazendo sentido. Significa que a conta mudou, e que quem faz simulação com número de 2022 está se enganando.
Por que assinatura é uma resposta diferente
O cronograma de Fio B da Lei 14.300 mira um caso específico: a microgeração e minigeração na própria unidade consumidora. É o sistema no seu telhado, injetando na rede, gerando crédito para você mesmo.
Quem consome energia limpa por Geração Distribuída via uma usina remota está numa relação diferente. Você não instala equipamento, não homologa sistema, não vira gerador. Uma usina certificada gera a energia, e você recebe créditos que abatem parte da sua fatura — continuando cliente da mesma distribuidora, na mesma rede, com o mesmo medidor.
Sendo honesto sobre os dois lados:
- A favor da assinatura: zero investimento inicial, zero obra, zero manutenção, zero risco de equipamento, e você não assume o cronograma de Fio B de quem gera no próprio telhado.
- A favor do painel próprio: o ativo é seu, valoriza o imóvel, e depois de pago o custo marginal da energia é muito baixo. Quem tem capital, telhado e horizonte longo pode chegar num resultado melhor.
Não existe resposta única. Existe perfil.
O erro mais comum de quem faz essa conta
O desconto de qualquer modelo de energia limpa não incide sobre o valor total da sua fatura. Ele incide sobre a parcela de energia compensável.
Numa conta residencial típica, essa parcela representa algo entre 60% e 75% do total. O resto — iluminação pública, taxa mínima da distribuidora, bandeira tarifária em alguns casos — continua lá, e nenhum modelo de geração distribuída faz isso desaparecer.
É por isso que uma promessa de "50% de desconto na conta de luz" deve acender um alerta imediato. Ou o número se refere só à parcela de energia (e o efeito na fatura é bem menor), ou alguém está contando uma história.
O que fazer com essa informação
Se você já tem painel instalado: não há o que fazer quanto ao Fio B — a regra é a regra. O que dá para otimizar é o casamento de carga, ou seja, consumir mais no horário em que o sistema está gerando. Energia consumida na hora não passa pelo medidor e não sofre a cobrança.
Se você está pensando em instalar: refaça a simulação com o cronograma real até 2028, não com o número de hoje. Peça ao integrador o payback considerando 75% de Fio B em 2027 e 90% em 2028. Se ele não souber responder, é sinal.
Se você só quer pagar menos sem virar dono de usina: a assinatura por Geração Distribuída resolve isso sem investimento e sem obra. Vale checar se sua distribuidora tem cobertura e se o seu consumo se encaixa.
Perguntas frequentes
O que é o Fio B na conta de luz?
O Fio B é um componente da TUSD (Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição). Ele remunera o custo de operar, manter e expandir a infraestrutura da distribuidora — postes, cabos e transformadores. Todo consumidor paga o Fio B; a Lei 14.300 mudou apenas quanto dele pode ser compensado por quem gera a própria energia.
Quanto é o Fio B em 2026?
Em 2026 a cobrança é de 60%. O cronograma da Lei 14.300/2022 começou em 15% em 2023 e sobe 15 pontos por ano — 30% em 2024, 45% em 2025, 60% em 2026, 75% em 2027 e 90% em 2028. A partir de 2029, a ANEEL define um novo modelo de compensação.
O Fio B acabou com a economia da energia solar?
Não, mas reduziu. Quem instalou painel continua economizando — só que menos do que economizaria sob as regras antigas, e a diferença aumenta a cada ano do cronograma. O impacto real depende da distribuidora, do perfil de consumo e de quanta energia é consumida no mesmo momento em que é gerada.
Quem tem sistema homologado antes de 2023 paga Fio B?
Sistemas homologados até 6 de janeiro de 2023 têm direito adquirido às regras anteriores até 2045, conforme a Lei 14.300/2022. O cronograma progressivo de Fio B vale para quem foi homologado a partir de 7 de janeiro de 2023.
Quem assina energia por Geração Distribuída paga o Fio B progressivo?
Não da mesma forma. A cobrança progressiva da Lei 14.300 incide sobre a energia compensada por quem gera na própria unidade consumidora. Quem recebe créditos de uma usina remota continua pagando a tarifa normal da distribuidora sobre o que consome, e a economia vem do desconto sobre os créditos — sem investimento em equipamento e sem exposição ao cronograma de quem gera no próprio telhado.

